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18.4.13

Tempestade Azul - Capitulo 1



- Mais um!- gritei ao acertar mais um alvo em um dos galhos de um grande carvalho, preparei outra flecha e excitei o garanhão a ir mais rápido.
Acertei mais um alvo.

- Céus! - Disse ao passar a mão sobre a aljava à procura de mais flechas e não encontrar nenhuma, peguei as rédeas do cavalo e direcionei-o para o rio que passava pelo bosque.
Deixei o cavalo pastando enquanto ia ao rio. Tirei as botas e sentei-me na beira do rio com os pés dentro da água gelada que me fez arrepiar.
Gemei de alívio, aquelas botas apertavam meus dedos deixando os brancos, cai deitada na grama, o céu estava claro sem nenhuma nuvem.
Até que eu escutei um som de passos na mata. Droga, agora que eu estava descansando!
Levantei-me e peguei minha adaga, se fosse um ladrão ele escolhera a pessoa e a hora errada para roubar.
Os passos chegaram mais perto, até só ter uma fileira de árvores me separando da pessoa. Certamente ela ainda não me viu.
Andei até a fileira de árvores até só restar um mínimo espaço entre nós, tentei agarrar o ladrão, mas ele era rápido demais e segurou minhas duas mãos e puxou para cima me virando de costas para ele.
- O que você está fazendo no meio da floresta no dia de seu aniversário? - Reconheci essa voz na hora
- Castiel! Me larga! - Falei tentando fazer que ele soltasse meus pulsos.
- Você devia voltar para o castelo, nunca te falaram sobre os gnomos do mal que atormentam essas terras? - Falou Castiel me soltando.
Com certeza ele estava brincando comigo, ele sabia que eu estava ali para fugir do castelo e da arrumação para o meu aniversário de dezessete anos que era hoje. Levantei-me e procurei com os olhos pelo chão a minha adaga que eu tinha deixado cair.
- Você sabe muito bem o porquê estou aqui - falei para ele.
- Lógico que sei, te conheço há anos - respondeu ele

Isso era verdade, eu e Castiel nos conhecemos desde pequenos, o pai dele era o cozinheiro do castelo, na verdade, Cast é meu primeiro e único amigo que eu tive por aquelas terras, do reino inteiro.
Há pouco tempo Castiel tinha ser tornado um cavalheiro da guarda real, e pela armadura que estava usando, ele não estava ali como um amigo.
-Bem, vamos voltar para o castelo? - Perguntou Castiel, coloquei a adaga no bolso do vestido e olhei-o incrédula.
-Não, eu vim aqui para me livrar daquele inferno! Não vou voltar para lá! - Respondi irritada.
- Misty, por favor, vamos voltar para o castelo! - Disse Castiel.
- Não! - Respondi como uma criança mimada.
- Eu recebi uma ordem de levá-la de volta para o castelo, então, por favor, me ajude! - Disse ele passando uma mão pelos cabelos negros.
- Então aqui vai uma nova ordem direta da princesa: Volte para o castelo sozinho! - Disse quase gritando, Castiel me olhou furioso e se virou, relaxei os ombros e respirei fundo aliviada de não ter que voltar para o castelo, mas Castiel deu meia volta e me pegou pela cintura e me jogou por cima do ombro.
  - Me bota no chão! Isso é uma ordem!- gritei irritada, mas ele não ligou continuou andando.
- Soldado, eu ordeno que você me coloque no chão! - Gritei me debatendo.
- Só que quem está aqui não é um soldado, mas seu amigo, Castiel! Agora fica quieta! - Disse ele ­- Venha garoto!- disse Castiel para meu cavalo e depois assobiou, o cavalo olhou para nós e depois começou a nos seguir, continuei me debatendo até cansar então dobrei os braços e parei.

- Isso, fica quieta, facilita a minha vida! - Disse Castiel, fiz uma careta para ele.
Depois de vários minutos caminhando, Castiel me colocou em cima do cavalo, estávamos chegando à aldeia e as pessoas achariam estranho a princesa ser carregada daquele modo.
Quase peguei as rédeas do cavalo, mas Castiel foi mais rápido, provavelmente sabia sobre as minhas intenções de fugir.
Quando entramos na aldeia, as pessoas que me reconheceram abaixaram suas cabeças em respeito, alguns gritavam parabéns para mim, os pais apontavam para mim e diziam as suas crianças quem eu era. Toda aquela atenção me irritava, nunca gostei de ser o centro das atenções, mas infelizmente na minha vida inteira eu sempre fui o centro das atenções menos para minha mãe.
Afastei os pensamentos, não poderia parecer triste. Olhei para frente e sorri para os aldeões, quase foi possível ouvir um urro de felicidade por eu ter sorrido para eles, já que era conhecida como a Princesa Fria, por causa da cor dos meus olhos e cabelos, e também por causa do meu comportamento quase sempre frio.
Depois de uns minutos passando pela aldeia o Castelo Lothbrock se ergueu, a construção de mais de dois séculos estava cercada de guardas prontos para defender o castelo, os altos muros de pedra cinzentas davam ao castelo um ar medonho.
Quando chegamos, o grande portão de madeira se abriu e a grade de ferro atrás dele foi puxada para cima.
Desci do cavalo e andei até a porta do castelo que foi aberta para mim por dois soldados que abaixaram suas cabeças em respeito, o grande salão decorado a ouro, prata e couro apareceu, fui direto para as escadas.
No meio do caminho, várias servas abaixaram a cabeça para mim, o castelo estava frenético, gente ia de um lado para o outro fazendo os preparativos para festa.
Continuei subindo as escadas até chegar ao meu quarto, logo depois chegou uma serva, uma jovem garota e me perguntou o que eu queria.
- Chame a minha ama, por favor.
- Sim, Alteza.


Quando a serva saiu dos meus aposentos eu fechei a porta e deitei na cama.
A ama era a única pessoa que eu confiava plenamente, tirando Castiel, ela que cuidou de mim quando eu era mais nova, por incrível que pareça minha mãe não ligava muito para mim e quando meu irmão nasceu a nossa relação só piorou.
Meu pai nunca ligou para minha relação a isso, nas horas que eu reclamava sobre isso ele sempre mudava de assunto e o assunto preferido dele era o meu cabelo, por ele ser azul-turquesa natural e que nem meu pai e nem minha mãe tinham. Ele vivia elogiando o meu cabelo, mas tinha vezes que ele ficava com um olhar triste no rosto e eu tentava animá-lo, assim esquecia que antes falava dos maus tratos de minha mãe.
- Alteza, posso entrar? -Perguntou a ama batendo na porta.
- Por favor – Respondi.
A ama abre a porta e se senta do meu lado na cama.
- O que lhe aflige tanto, criança? -Perguntou ela.
- Por que você acha que eu estou aflita ama?- Perguntei a ela.
- Por que seus cabelos ficam mais claros – Respondeu ela.
A ama se levantou da cama e foi até a minha penteadeira.
- Você tem que se arrumar para o baile criança, daqui a pouco chegarão os convidados e você ainda não estará pronta. – Me avisou a ama. Dei um longo suspiro. - Ah, então é isso, você sabe que tem que ir!- Mas eu não quero! Sempre são as mesmas coisas, as mesmas pessoas, os mesmos olhares para mim, você sabe que eu não nasci para isso. - Falei irritada.
- Não diga uma coisa dessas, seu pai disse que essa noite irá fazer um discurso - Disse a ama animada.
- Ele sempre faz discursos - Respondi emburrada.
- Mas esse ano vai ser diferente, vai ser uma surpresa para todos no salão. - Falou ama agora procurando um vestido na minha arca.
- Como assim? Você acha que ele vai passar o trono para meu irmão? - Perguntei sonhando o como iria ser bom se isso acontecesse.
- Claro que não, você é a mais velha, seu irmão só tem quinze anos, e é mimado demais pela sua mãe para assumir alguma coisa, imagina um reino! – Respondeu a ama.
Eu e a ama rimos
- Ah! Achei!- Disse a ama tirando algo do baú.
Virou-se para mim segurando um vestido cor de gelo, as mangas abertas na metade deixavam a área do cotovelo para baixo expostas, o decote era quadrado enfeitado com pequenas rosas azul-claras, a parte do tronco era envolvida em fios pratas que formavam rosas que pareciam estar presas em galhos pratas cheios de espinhos, a saia caia reta na cintura com várias camadas dando volume.

O vestido era lindo, parecia reluzir, levantei-me da cama e fui até a ama que largou o vestido em minhas mãos sorrindo. Fui com o vestido até o espelho de corpo inteiro na lateral do quarto e coloquei o vestido na minha frente, ele daria perfeitamente em mim, me virei para ama.
- Ama, de quem é esse vestido? Por que ele estava na minha arca? - Perguntei.
- Eu o fiz quando você nasceu e guardei-o aqui - Respondeu a ama sorrindo.
- Eu quero usá-lo!- Disse me virando para o espelho.
- Que maravilha, já preparei um banho para você! Vamos! - Disse ama, pegando-me pela mão, coloquei o vestido sobre a cama e fui com ela.
Depois de tomada banho, ama me ajudou a colocar o vestido, ele se moldou perfeitamente no meu corpo, passei as mãos pela lateral do corpo sentindo o tecido.
- Ama, meus braços estão de fora, não posso sair assim! - Disse-me virando para ela que por sua vez segurava um par de luvas de cor de gelo os dedos ficavam a mostra e as laterais eram abertas presas com fitas pratas. Ama colocou-as em meus braços, voltou para minha arca e pegou um par de sapatos brancos, me sentei na cama e ela os colocou em meus pés.
- E os cabelos?- Perguntei em frente ao espelho puxando-os para cima.
- Sente-se aqui - Disse a ama apontando para a cadeira em frente a minha penteadeira, sentei-me e ela começou a escovar meus cabelos, penteou as pontas para que ficassem inclinadas para dentro, pegou uma mecha na lateral da minha cabeça e puxou-a para cima prendendo com uma presilha incrustada com diamantes. Ama pintou meus lábios com açafrão e escureceu meus cílios com negro de fuligem.
Quando me olhei no espelho novamente me impressionei, estava bela como nunca, me virei para a ama e abracei-a forte.
- Criança, você está encantadora, belíssima! - Disse a ama batendo as mãos.
- Obrigada, mas você fez um ótimo trabalho, ama! - Respondi.
- Obrigada, mas agora vá. Os convidados já chegaram, agora só falta você! - Disse ela me levando a porta.
Imediatamente desanimo.

- Anda criança, vá! - Gritou a ama da porta enquanto eu andei devagar para as escadas.
Quando eu cheguei às escadarias que dão ao salão principal parei.
- Vamos Misty, temos que colocar um sorriso no rosto, depois do banquete você vai se esconder em algum lugar. - Falei para mim mesma antes de colocar um sorriso na cara e descer as escadas.
Muitas pessoas já tinham um copo de vinho na mão e todos os clãs mais poderosos da região conversavam uns com os outros harmoniosamente, quando entrei no salão, todos pararam de falar e me olharam, admirando o meu vestido.
Sentados em seus tronos no canto central do salão estava meu pai, minha mãe e meu irmão. Meu irmão estava mais interessado na comida que com o baile, minha mãe com a mesma cara séria; acho que para a única pessoa que ela mostrava um sorriso era para meu irmão, já meu pai era diferente, ele sempre tinha no rosto um sorriso e vivia contando piada.
Eu fui até eles, então meu pai se virou para mim e falou.
- Você estar magnífica hoje minha filha.
- Obrigado pai. - Disse-me inclinando sutilmente.Então meu pai se virou para o salão e levantou a taça de ouro.
- Que comece o banquete.
Todos se sentaram na grande mesa no salão de jantar. O banquete passa rápido, muitos me desejaram feliz aniversário, outros elogiando o como eu estava bela, mas era sempre a mesma coisa.
Quando acabou o banquete todos voltaram para o salão e músicos começaram a tocar fazendo todos dançarem. Eu já estava de olho na saída que iria tomar para sair daquele inferno.
Fiquei de olho na porta que dava para o jardim interno. Eu comecei a andar para lá quando alguém para no meu caminho.
- Já estar fugindo da festa? -Pergunta Castiel.
- Você sabe que eu faço isso todo ano, agora me deixe passar. - Falei tentando passar por ele, mas ele era alto e rápido demais para mim.
- Não posso deixar você passar, ordens de seu pai. Esse ano ele quer você aqui até ele fazer o seu discurso.
Respondeu Castiel dando um sorriso torto.
- Então o que eu vou fazer a festa inteira? – Resmunguei, Ele me olhou pensativo com seus olhos violetas. Logo depois seu sorriso torto apareceu em seu rosto.
- Dance comigo.

Mas antes de eu conseguisse responder ele já me havia puxado para o centro do salão aonde os convidados dançavam.
Estava começando a Dança de Roda. A Dança de Roda ou Dança da Corte era uma dança coletiva, quando pequena eu tinha aprendido a coreografia dela, mas nunca resolvi entrar em uma, nunca gostei de dançar.
- Princesa, gostaria de entrar nessa dança comigo? - Perguntou Castiel imitando um sotaque estranho, eu ri e depois respondi que sim. Dei o braço a ele e entramos na dança.
Não sei por quanto tempo fiquei dançando, mas passei todo o tempo rindo e olhando para Castiel.
Já estava animada para outra dança, mas então eu percebi que meu pai tinha se levantado do trono, ele ia fazer o discurso. Todos ficaram quietos para escutar o Rei Barton.
- Meus amigos! Agradeço pela presença de todos no décimo sétimo aniversário de minha filha, Misty. – Disse meu pai fazendo um sinal para que eu fosse até ele, andei até o seu lado cautelosa e com um grande sorriso falso no rosto. Quando cheguei ao seu lado vi uma mulher linda de cabelos brancos com algumas mechas em azul-turquesa e um vestido vermelho vivo e um rapaz de cabelos cor de prata usando roupas parecidas com as usadas pelos príncipes entrarem pela porta principal.
- Mas não é só isso que desejo comunicar, finalmente o reino de Lothbrock e Bluestorm entraram em acordo, essa semana eu e a rainha de Bluestorm decidimos entrar em paz unificando os dois reinos com o casamento de nossos filhos primogênitos, o príncipe de Bluestorm, Thorn, princesa de Lothbrock, Misty, iram se casar no próximo verão! – Continuou meu pai, meus olhos se arregalaram por um segundo, mas me controlei para que o sorriso de princesa voltasse ao meu rosto e a falsa felicidade com a festa e com o meu noivado fosse vista pelos convidados. – Venham aqui, rainha e príncipe de Bluestorm! – Disse meu pai levantando as mãos para o alto.
A mulher e o rapaz que eu vira antes sorriram para todos e vieram em nossa direção. A rainha apertou a mão de meu pai e quando a rainha veio até mim seus olhos brilharam de uma forma que não consegui entender, a rainha me abraçou forte e beijou minha bochecha de leve.

Quando o príncipe veio me cumprimentar ele estava com um sorriso no rosto, mas era possível sentir que era sorriso frio, vazio.
No olhar dele era possível ver que ele não queria estar ali. E a única coisa que ele fez foi se inclinar suavemente, o gesto foi mínimo.
- Feliz aniversário princesa.
Falou ele, mas a voz era igual ao sorriso, frio e vazio. Inclinei de leve a cabeça agradecendo.
A rainha se moveu graciosamente para ficar do outro lado de meu pai, seu filho a seguiu.
- Bem, agora comemoraremos a festa de paz entre os dois reinos e o aniversário de minha querida filha. – Disse meu pai, os convidados bateram palmas brevemente, então à música voltou a tocar e os convidados a dançarem. Vi Castiel me olhar confuso, ele virou o rosto e esbarrou na duquesa de Borion, ele ofereceu a mão à duquesa que aceitou lisonjeada e começaram a dançar.
Virei- me de costas para eles e segui para meu trono ao lado de meu pai, quando nos sentamos ele pegou minha mão e a apertou forte, virei o rosto para ele.
- Mais tarde passe em meu escritório e conversaremos. – Sussurrou ele só para que eu ouvisse. Assenti levemente com a cabeça e me virei para frente sorrindo para a festa.
Depois de algum tempo meu pai se levantou para conversar com alguns amigos e minha mãe veio até mim.
- Sei que é difícil de digerir essa notícia, me casei com seu pai do mesmo jeito, casamentos arranjados são bem comuns para nós e você sabe bem. Tenho certeza que você nunca pensou que um dia iria escolher com quem casaria. Se quiser ir para o jardim, respirar e tentar digerir isso pode ir, seu pai entenderá. – Murmurou ela, a olhei e pela primeira vez vi que ela fazia isso para meu bem, lágrimas estavam prestes a transbordar de seus olhos. Peguei sua mão e a levei aos meus lábios
- Obrigada mãe. – Murmurei, me levante, peguei um pedestal pequeno com velas que estava em cima de uma mesinha e fui para o jardim, andei até a parte mais afastada do castelo, quando criança fugia para lá para tentar afastar-me da minha vida.
Sentei em um banco de pedra e admirei o céu pontilhado de estrelas, a Lua não aparecera no céu naquela noite. Então chorei.





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