Meu corpo inteiro ficou tenso, virei minha
cabeça devagar em direção a voz. Castiel me olhava com aqueles olhos violetas
pareciam ainda mais escuros, estava sério como nunca. Meu corpo inteiro tremia.
- Quem é ele? - Perguntou Geoffrey se aproximando de Castiel.
- Er... Ele é um amigo. - Sussurrei.
- Que amigo. - Murmurou Suzane quase para si mesma.
- Estou procurando por uma garota fujona, mas
dessa vez ela ultrapassou todos os limites e foi para longe de mais. Ela é
relativamente alta, tem cabelos azuis turquesa, olhos azuis claros e sua pele é
branca. - Disse ele passeando os olhos pelas pessoas como se procurasse alguém,
quando terminou olhou fixamente para mim.
- Vamos conversar em outro lugar. - Eu
disse me virando de costas para ele e fazendo sinal para os irmãos virem
comigo.
Reparei pelo canto do olho que Castiel começara a me seguir e
que ás vezes lançava olhares estranhos para Geoffrey que respondia do mesmo
modo.
Saímos da feira e chegamos as margens da floresta, consegui ver
o rio Lósio por entre as árvores.
Virei-me para Castiel para ficarmos cara a cara, lentamente ele
cruzou os braços na frente do corpo esperando que eu começasse.
- Eu descobri uma coisa sobre mim, meu
pai confirmou. Eu sabia que ele não me dará as resposta de que preciso, por
isso decidi procurá-las eu mesma.
- E eles? - Perguntou Castiel apontando para os irmãos com a
cabeça.
- Eles são dois ladrões que tentaram se assaltar, mas
fracassaram, depois disso foram capturados por um ogro e eu os salvei, como
pagamento eles me levarão até o lugar onde encontrarei minhas respostas. -
Respondi.
- E onde é esse lugar? - Perguntou Castiel.
- Nowhereland. - Respondi.
- A terra de ladrões?! Você está louca? - Perguntou ele, seus
olhos saltavam das órbitas.
- Sim, a terra de ladrões e não, eu não estou louca. - Respondi.
- Como você sabe que lá estão as resposta para o que quer que
seja? - Perguntou ele.
- É em Nowhereland que estão todas as verdades das mentiras, os
olhos que a viram e os ouvidos que as ouviram. - Repeti as palavras que um dia
ouvira meu pai dizer.
- Eu tive uma ideia melhor, vamos
voltar para o castelo, você libera esses dois irmãos e eu chamo o médico para
ver se você não ficou louca, anda vamos - Disse Castiel me puxando pelo braço.
- Castiel! Eu já disse que não vou, eu não ia conseguir viver
sem saber a verdade, Castiel, por favor, acredite em mim, eu vou conseguir as
resposta que eu quero, com ou sem você - Falei tirando meu braço do aperto da
mão dele.
Ele ficou um tempo me encarando, pensando no que eu disse a ele.
- Eu não vou deixar você fazer isso sozinha. - Falou ele, eu me
desanimei, pensei que ele ia estar do meu lado.
- Então adeus Castiel - Respondi tristemente e me virei, mas ele
segurou meu braço outra vez.
- Você não me deixou terminar, eu disse que não vou deixar você
fazer isso sozinha, então vou ter que ir com você - Falou ele com um sorriso
torto no rosto.
Quis pular de felicidade na hora, mas ele poderia usar isso
contra mim, ele ia mostrar aquele seu ego grande que ele nutria, não queria
isso, então preferi fingir que não importava.
- Tudo bem, mas saiba que eu consigo me virar sozinha com ou sem
você. Pode nos acompanhar nessa jornada. – Eu disse - Vamos. Já está quase
anoitecendo. - Falei para Castiel e indo para onde os gêmeos estavam e Castiel
que ria baixinho atrás de mim.
- Então ele ainda não foi embora. - Falou Geoffrey quando viu
que Castiel ainda continuava atrás de mim.
- E não vou por um bom tempo. Você vai
ter que se acostumar com a minha linda carinha ladrãozinho. - Falou Castiel com
um sorrisinho sínico no rosto.
Suspirei alto.
- Ele vai com a gente. - Falei de uma vez.
- Sério? - Perguntou Suzane meio alegre de mais.
- Sério mesmo? - Perguntou seu irmão logo atrás, não muito feliz.
- Vocês precisam de alguém para proteger vocês, são muito fracos
para se defenderem. - Falou Castiel zombando.
- Saiba que a Misty lutou contra um ogro, que minha irmã é muito
boa em caça e que meu físico com certeza é melhor que o seu. - Debochou
Geoffrey.
- Quer comparar? Que tal uma queda de braços? – Perguntou
Castiel olhando com raiva para Geoffrey que lançou um olhar igual para o outro.
- Os
dois parem. Nosso objetivo aqui é chegar a Nowhereland e não saber qual dos
dois é mais másculo. – Falei puxando o capuz para baixo.
Seguimos
a viagem ao lado do rio, Geoffrey e Castiel sempre se desafiando e eu e Suzane
tentando pegar algo para comermos mais tarde.
Ao
cair da noite montamos acampamento entre as árvores, mas sempre perto do rio.
Assamos dois esquilo e cinco peixes que conseguimos capturar e depois nos
deitamos para dormir.
***
Acordei antes que o sol nascesse
alguns raios iluminavam a terra e as nuvens levemente.
Peguei uma adaga, meu arco e flecha e entrei na floresta a
procura de alimentos.
Voltei com várias frutas e dois esquilos. Limpei os esquilos na
água do rio, os embrulhei em grandes folhas de árvores e guardei dentro da
minha bolsa de pano, me limpei e fui acordar os outros, no céu o sol começava a
nascer preguiçoso.
- A-COR-DEM! - Gritei o mais alto que pude, os três pularam
assustados.
Me olharam atordoados, eu estava rindo de suas expressões.
- Não faça mais isso. - Disse Castiel fazendo cara de mau.
- Me obrigue. – Rebati. – Agora não é hora para isso, vamos
comer, depois vamos continuar a viagem.
- Certo. – Disse Suzana caminhando até o rio para jogar água no
rosto ainda sonolento, Geoffrey a seguiu.
Olhei para Castiel ainda deitado.
- O que foi? – Perguntou ele mal humorado.
- Não vai se levantar, se lavar e vir comer? – Perguntei me
sentando na grama em frente à comida.
- Ta,
ta, ta. – Respondeu ele se levantando, caminhou até os irmãos no rio e começou
a se lavar também.
- Quero conversar com você. – Disse
Castiel deixando as palavras flutuarem no ar.
- Fala. – Eu disse.
- Fala. – Eu disse.
- O que foi que você
descobriu? – Perguntou ele, reparando que eu hesitava, ele continuou. – Eu sou
seu amigo há muito tempo Misty. Você sabe que pode confiar em mim e que eu
faria qualquer coisa por você. – Continuou ele. – Olhe o que estou fazendo! Invés
de levar você para o castelo a favor ou não, eu estou aqui te ajudando nessa
maluquice. Então pelo menos, no mínimo me diga o porquê disso! – Disse ele.
Suspirei.
- Está bem. – Eu disse. –
Eu descobri que não sou filha de Ambre. Sou filha do rei com outra mulher, mas
meu pai insistiu que não diria para mim quem é a minha mãe. – Comecei. – Então
uma feiticeira veio até mim e disse que o chefe dela, o mago Darkfire, tenha as
resposta que quero, também disse que só posso encontrá-lo em Nowhereland. –
Quando olhei para Castiel não consegui distinguir o que seus olhos diziam, era
algo desconhecido para mim.
Então, do nada Castiel me
puxou para um abraço, algo que nunca fizemos.
Fiquei paralisada, não
respondi ao gesto, na verdade eu estava em choque.
- Desse jeito você vai
sufocá-la. – Disse Geoffrey vindo até nós.
Castiel me largou achando
que Geoffrey dizia a verdade.
- Você devia saber como
tratar uma mulher e tem um jeito muito íntimo de dar carinho. – Disse Geoffrey
e antes que eu percebesse ele me abraçou por trás e me beijou o pescoço. Graças
ao abraço de Castiel minhas defesas ficaram abaixadas.
- Vamos parar com isso,
temos muito que andar ainda. – Disse Suzana se aproximando e separando seu
irmão de mim. Ela era a minha salvadora.
Olhei para Castiel e a
única coisa que ele fez foi começar a andar sem olhar para mim.
Homem doido, culpa dele o
Geoffrey ter me abraçado e beijado.
Geoffrey piscou para mim
enquanto passava, me fazendo ficar vermelha.
Que isso tipo de coisa não
se repita nunca mais.
Passamos o resto da manhã
caminhando em silêncio profundo.
Já era por volta de uma
hora da tarde quando decidimos parar para almoçar, fizemos uma pequena fogueira
e colocamos os dois esquilos presos em gravetos a terra para cozinhar. Castiel
e Geoffrey pescaram cinco peixes no total. Castiel ficou com a cara amarrada o
almoço inteiro, porque Geoffrey havia pegado um peixe a mais, bem, eu acho que
esse foi o motivo.
Voltamos a caminhar em
silêncio.
Só conversamos de novo de
noite, quando já havíamos montado acampamento.
Tínhamos acabado de jantar,
estávamos sentados em volta da fogueira para nos esquentar.
- Onde foi que você e a
Misty se conheceram? – Disse Suzana se inclinando sobre Castiel.
- Meu pai trabalha na casa
de Misty, e como sempre eu estava lá com meu pai acabei fazendo amizade com
ela. – Respondeu ele.
- Você trabalha? –
Perguntou Suzana se aproximando mais de Castiel que fingiu não perceber.
- Sim, sou guarda da casa
de Misty. – Respondeu ele sem nenhuma emoção.
- Uau, guarda. – Disse
Suzana impressionada. – Misty deve ser muito rica. – Disse Suzana para mim.
Eu apenas a encarei por
algum tempo, depois desviei o olhar para a fogueira.
- Deixa eu adivinhar: Você
é filha de alguém muito rico, super mimada. Ficou brava com o papai rico e
decidiu fugir para ser vista como a filha rebelde. – Disse ela venenosa para
mim.
- Na verdade não. –
Respondi. – Não sou mimada e nem rebelde. – Ouvi Castiel bufar. – Fugir para
mim já é rotina.
- Verdade. – Disse Castiel.
– Misty não é mimada, mas um pouco rebelde. E fugir é rotina para ela, mas
dessa vez ela está para muito longe.
- Hum... – Murmurou Suzana.
– Porque você foge tanto assim? – Perguntou.
- Eu e Am... minha mãe
discutimos muito, ás vezes fico tão irritada e fujo só para relaxar. –
Respondi.
- Então dessa vez deve ter
sido sério para você ir para tão longe. – Observou ela.
- Pare Suzana. – Repreendeu
Geoffrey.
– O que aconteceu? –
Perguntou Suzana ignorando o irmão.
Encerei-a, essa mulher está
me irritando.
Fui interrompida antes de
começar por uivos de lobos próximos.
Nós quatro nos levantamos
em um salto, peguei minha bolsa que estava ao meu lado e saquei minha espada e
arco e flecha.
Joguei a espada para
Geoffrey que estava mais perto de mim, prendi a aljava nas costas e preparei o
arco.
Castiel deu uma faca e uma
adaga para Suzana e preparou a espada em frente ao corpo.
Olhei para o céu, a lua estava cheia, o céu coberto
de nuvens.
O vento passou zunindo por nós, o fogo diminuiu
consideravelmente. Consegui ver três pares de olhos amarelos nos encarando, os
encarei de volta.
Um minuto depois os lobos pularam para fora da
cobertura das árvores, eram ao todo dezessete que nos cercaram imediatamente.
Mostraram os dentes brancos e finos para nós,
apontei a flecha para a testa do que estava em minha frente seus lábios se
arregalaram mais quando percebeu meu sutil movimento.
Então ele partiu para cima de mim, os outros lobos
seguiram o seu exemplo e pularam para cima de nós.
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