Fazia dois dias que o garoto que a
Julia machucou está vivendo no circo, logo depois de ela ter suturado o
ferimento dele ela perguntou o seu nome e ele disse que se chamava Derick e
logo depois ele perguntou o nome dela e quando respondeu ele sorriu.
Durante
esses dois dias eles foram ficando amigos e Julia foi descobrindo coisas sobre
ele que ela não imaginava. Derick tinha
19 anos e era órfão, passou um tempo no reformatório, mas a pouco mais de
quatro dias tinha conseguido fugir de lá. Rose ofereceu uma tenda para ele que
aceitou de bom grado, agora Derick fazia parte do circo.
Julia
e Derick viviam pra cima e pra baixo pelo circo, sempre juntos, a única pessoa
que não gostava dessa ideia era o Rafael, quanto mais tempo Julia passava com
Derick menos tempo passava com o Rafael, e ele estava sentindo muita falta da
sua melhor amiga.
"Hei,
Rafa?! Está aí?" Perguntou Julia entrando na tenda.
"Sim,
estou! Mas dormindo!" Resmungou Rafael virando para o outro lado na cama.
"Vou
pegar o kit de primeiros socorros. Já está na hora de tirar os pontos do
Derick!" Disse ela, indo até o armário e pegando o kit "Desculpa
Rafa! Volte a dormir!"
Rafael
se virou na cama e a observou sair da sua tenda com tristeza no olhar.
"Julia
espere!" Chamou Rafael, ela se vira para olhar o amigo. Rafael levantou da
cama e foi até ela, segurou-a pelo pulso e a jogou na cama.
"Rafa,
o que você está fazendo? Eu tenho coisas para fazer" falou Julia já quase
se levantando da cama. Antes de ela conseguir se levantar, Rafael se colocou em
cima dela e a segurou pelos pulsos prendendo ela na cama.
"Eu
sempre estive ao seu lado, mas você sempre me afastou! Agora com esse cara
aqui, você o segue como um cachorrinho e vice-versa" ele cuspiu as
palavras, Julia estava assustada com a reação do amigo que sempre fora calmo.
“Julia,
eu sempre te amei! Por favor, diga que me ama!" Murmurou ele, Rafael beijou a base do pescoço
de Julia e foi subindo fazendo uma trilha de beijos fortes e trêmulos, até que
a sua boca chegou à boca dela, ele a beijou ardentemente colocando toda a sua
força, paixão e espírito naquele beijo.Só que um beijo não é perfeito quando o
outro não retribui com a mesma intensidade.
Quando
Rafael tirou seus lábios de cima dos de Julia ele percebeu que ela tinha
lágrimas nos olhos, ele ficou tão petrificado com aquela imagem que acabou
afrouxando as mãos o suficiente para deixar ela se soltar. Ela saiu de baixo
dele, pegou a caixa de primeiros socorros no chão e saiu correndo de dentro da
tenda.
Ele
ficou na cama, ainda na mesma posição, sem saber se ficava feliz em finalmente
ter falado seus sentimentos ou triste pelo fato que possivelmente acabou com a
sua amizade tão amada.
Julia
correu para sua tenda esquecendo o que tinha que fazer, lágrimas escoriam dos
seus olhos e enquanto entrava na sua tenda dos sonhos não reparou Derick do
outro lado esperando- a.
Julia
jogou o kit no chão e desabou em cima de suas almofadas, chorou como nunca
havia chorado antes, sua preciosa amizade com Rafael que para ela era como um
irmão havia- se despedaçado, por ele a amar de outra maneira inconveniente.
Derick entrou na tenda dela ofegante, seu rosto mostrava profunda preocupação.
"Ju
o que houve?" Perguntou Derick indo pra perto dela.
"Não
foi nada Derick" respondeu ela em meio as lágrimas.
"Mentirosa,
me conta logo o que aconteceu" respondeu ele se sentando do lado dela.
"Não
foi nada, Derick! Estou falando a verdade!" Disse ela limpando as
lágrimas.
Derick
pegou os braços dela e a puxou para trás, para que ficassem frente a frente.
"Mentirosa!
Seu rosto está marcado em lágrimas, estava correndo quando passou por mim com
um rosto perplexo e agora está parecendo que foi culpada de um
assassinato!" Disse ele.
"Eu
sou culpada de um assassinato! Sou culpada do assassinato da minha amizade com
o Rafael!" Disse ela, lágrimas desciam pelo seu rosto.
"Como
assim?” Perguntou Derick confuso.
"Eu
sou muito burra por não ter percebido antes" disse ela ignorando a
pergunta dele.
"Percebido
o que Ju? Me fale agora!"
"Eu
não quero falar sobre isso" foi só isso que ela respondeu, Derick se
levantou e foi em direção a saída da tenda.
"Aonde
você vai?" Perguntou Julia.
"Já
volto e não saia daí" ele respondeu e saiu sem falar mais nada.
Julia
continuou sentada no chão confusa enquanto Derick seguia a passos duros e
rápidos até a tenda de Rafael. Ele entrou como um furacão e logo tudo o que ele
havia imaginado foi confirmado, Rafael estava com jogado na cama, com o rosto
enterrado nos travesseiros.
"Seu
idiota!" Falou Derick puxando Rafael para cima com uma mão e dando um soco
na mandíbula do rapaz, Rafael estava perplexo. Derick o jogou de volta na cama
com ódio.
"Se
você gosta dela não devia ter forçando-a a lhe beijar!"
"Então
ela te contou, não acredito que ela já foi direto para os seus braços para
pedir consolo" falou Rafael cuspindo sangue no chão.
"Seu
babaca, saiba que ela está chorando muito por sua causa" respondeu ele
dando outro soco.
"Eu
não tive a intenção!" Gritou Rafael
"Estou
nem ai para sua intenção, só vou te dar uma lição para nunca mais magoar a
Julia" falou Derick levantando o punho, mas um grito o parou.
"Largue
ele, Derick" ela disse em alto e bom som, Derick não o soltou.
"Eu
disse para largá-lo" disse ela com raiva, devagar Derick foi afrouxando o
aperto em volta da gola da camisa de Rafael até que este caiu sentado na cama.
"Rafael
vá para o banheiro e lave bem a boca, depois que eu tirar os pontos de Derick,
eu virei vê-lo"
Derick
a olhou confuso enquanto Rafael ia para o banheiro.
"O
que você pensa que está fazendo? Ele te fez chorar!" Disse ele incrédulo.
"Cale-
se Derick, vamos para a minha tenda tirar seus pontos" disse ela se
virando. Derick não falou nada apenas a seguiu até a sua tenda, se sentaram na
cama e ela começou a tirar seus pontos devagar.
"Como
você soube que ele havia apenas me beijado?" Perguntou ela ainda sem
olhá-lo.
"Sua
boca estava vermelha, o tempo que você passou dentro da tenda não era o
suficiente para aquilo acontecer e ele não é louco ao ponto de fazer uma coisa
dessas!" Respondeu ele, olhando para a entrada da tenda, ela o olhou uma
única vez e voltou a tirar seus pontos.
"Você
não devia ter batido nele, o problema era meu, só meu, você não podia se
meter!" Falou ela.
"Mas
ele merecia! Ninguém tem o direito de te fazer chorar" respondeu ele ainda
olhando para a entrada da tenda.
"Foi
por causa desse tipo de coisa que você foi pro reformatório?" Perguntou
Julia baixinho.
"Ju,
você sabe que eu não gosto de falar sobre isso" falou ele friamente.
"Então
você quer que eu fale sobre os meus problemas, mas não quer dá uma palavra
sobre os seus! Sinceramente Derick, você conseguiu me deixar mais triste do que
eu estava!" Falou Julia, acabando de tirar seus pontos e indo em direção
da tenda, mas parou na entrada e olhou para trás e falou “Quando eu voltar não
quero-te ver aqui" e saiu.
"Julia!"
Gritou Derick, mas ela não voltou. Ela andou até a tenda de Rafael para vê-lo
como prometeu. Hesitou na entrada da tenda, mas respirou fundo e entrou, Rafael
estava deitado na cama com as mãos sobre a cabeça olhando para o teto.
"Você
não precisava vir! Eu estou bem!"
"Eu
prometi, deixa me ver o seu rosto" disse ela se sentando na beira da cama.
Ele
se sentou, e ela delicadamente segurou seu rosto, analisando-o
"Abra
a boca!” ordenou e ele obedeceu "Está tudo bem, mas coloque gelo!"
"Desculpe!"
Disse ele voltando a se deitar
"Só
não faça aquilo de novo e podemos esquecer!" Disse ela se levantando e
dando-lhe um beijo na testa.
"Descanse!" Disse se
virando para a saída da tenda.
"Eu vou fazer o possível e o impossível para você me amar!"
Disse ele, então ela parou por um segundo na entrada da tenda e foi embora.
Ela parou no meio do circo, sem saber pra onde ir, tinha medo de ir pra
tenda dos sonhos e encontrar o Derick, talvez ele ainda não tenha saído da sua
tenda, não tinha para onde ir, foi quando um gato passou na sua frente. Era o mesmo
gato preto que ela tinha-se assustado há dois dias.
Ele parou na frente dela e ficou olhando pra ela, foi quando ela
percebeu que os olhos do gato mais pareciam humanos que felinos.
"Você é um gatinho bem estranho, não é?" Falou ela indo em
direção ao gatinho e fazendo carinho em sua cabeça.
O gato miou e saiu andando, no meio do caminho ele parou e olhou para
ela, parecia que a estava convidando-a para ir junto com ele, e ela foi, seguiu
o gato até na parte mais remota do circo.
Talvez seja a única parte que ela não tinha visto desde que o circo se
estabeleceu nessa cidade ela nunca teve tempo de ver todos os cantos que o
circo pegava.
Naquela parte tinha um enorme carvalho e debaixo dele tinha uma tenda
pequena, o gato continuou andando até entrar na tenda e ela foi atrás. Quando
ela entrou na tenda se surpreendeu com o fato de só haver livros nela.
"Quando foi que criaram essa tenda?" Perguntou a si mesma.
"Então, você descobriu!" Falou uma voz forte atrás dela, logo
que a ouviu sorriu.
Ela se virou e olhou para o mágico do circo, ele era um homem de
cinquenta anos, em boa forma, seus olhos eram de um violeta vivo, poucas rugas
existiam em seu rosto. Julia era muito apegada a ele, fora ele que havia
cuidado dela quando era pequena, quem lutou para que ela fosse acolhida pelo
circo, fora ele que a ensinou tudo que ela sabia e o mais importante foi ele
que despertou nela o amor pelos livros.
“Aladus! Que lugar é esse?" perguntou ela.
"Esse é o seu presente surpreso de aniversário de 18 anos!"
Respondeu ele entrando na tenda.
"Aladus, esse é o melhor presente que alguém podia me dar! Deve ter
sido muito caro!" Disse ela.
"Não, foram todos meus, eu estava guardando-os para dar
a pessoa certa! E aqui está ela!" Ele disse levantando os braços na sua
direção. Julia correu para os seus braços que logo a envolveram, sentiu no topo
da sua cabeça um beijo.
"Me prometa que não vai ler nenhum deles e nem voltar
aqui até o seu aniversário!" Disse ele no meio de seus cabelos.
"Será uma tortura já que meu aniversário é só daqui a
duas semanas, mas eu prometo!" Respondeu ela.
"Ótimo, agora vai. Eles precisam se descansar para
quando você for lê-los!"
Eles saíram da tenda e seguiram para a tenda de Aladus,
Julia não havia reparado, mas o gato estava arranhando o pedestal para livros
que sobre ele tinha um grande livro velho aberto.

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